quarta-feira, 15 de maio de 2013

Só Caio entende...


"Discretamente, enviei sinais de socorro aos amigos. Ninguém ajudou. Me virei sozinho. Isso me endureceu um pouco mais. Não foi só você, não. Foram também pessoas até mais íntimas, me vi sozinho com enormes dificuldades. Não me lamuriei. Mas preciso que as pessoas saibam que isso doeu -- exatamente porque algumas destas pessoas importam para mim. "

(Caio Fernando Abreu)

terça-feira, 14 de maio de 2013

3 anos e 9 meses...


Há exatamente 3 anos e 9 meses você nascia, permitindo aos meus olhos conhecê-lo além da minha imaginação e das tantas ultras, que eu fazia na esperança de ter uma prévia de como você estava se formando, de como seria, com quem se pareceria...

Lembrei-me automaticamente de uma ultra em especial, a última que fiz antes de você nascer! Lembro-me de que estava ansiosa ao extremo, querendo ver o seu rostinho e você insistia em ficar com a mão na frente, meio que se escondendo, fazendo suspense... Aí me levantei, andei pela salinha, me agachei, me levantei, fiz um monte de exercícios a fim de fazê-lo mudar de posição. Voltei para a ultra, toda esperançosa, e você em vez de uma mãozinha no rosto, agora tinha posto... as duas! Só de perfil que deu mais ou menos para ver um pouquinho mais de você... Parece que não queria mesmo se revelar para a mamãe... (risos)

Acho que começou aí a sua primeira de muitas brincadeiras... de zoações... É assim todo dia, principalmente depois do banho, quando vou arrumá-lo para a escola... a ponto de, na pressa, isso até me irritar! É assim todo dia quando eu peço para você pegar alguma coisa para mim e você finge que vai me entregar e sai correndo, para ver se eu corro atrás para entrar na sua brincadeira, de pique forçado! (risos)

Agradeço a Deus todos os dias por você ser perfeito, por ter saúde, por ser tão espertinho, tão carinhoso, por estar comigo em todos os momentos, até nos de TPM, sem reclamar, tentando me arrancar sorrisos, e por tantas vezes parecer aceitar as minhas falhas, mais do que eu as suas, e por me compreender muito mais do que eu a você. Como sou grata a você, filho, por estar sempre me mostrando que posso ser melhor do que sou, em muitos sentidos, mas sei que, ainda assim, estarei sempre aquém a você! Obrigada por ser meu filho e por fazer com que eu me sinta a melhor mãe do mundo, mesmo tendo total convicção de que estou longe disso. São muitas as incompreensões e limitações... mas como é gigantesco o amor, viu! Parabéns!

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Surgindo um talvez

Há músicas que parecem ter, desde o primeiro instante, livre acesso a nós... conhecem todas as palavras  mágicas que abrem todas as portas, até as mais secretas, que escondemos até de nós mesmos...  nossos esconderijos, porões, calabouço, sótão... 

Há tempos não encontrava uma que tivesse o tal do meu "abre-te, sésamo", mas esta realmente trouxe todas as senhas... senhas antigas, recentes, novas, futuras, até todas elas misturadas...

Meu alerta de perigo tocou! Duas vezes! Tudo me soa beeem familiar... Mesmo assim, ouço atentamente, não me canso de ouvir, de mergulhar na letra e viajar na melodia... Perambulo em mim, com medo e com um certo alívio por ver que talvez a fase anestésica tenha cessado e talvez, só talvez, seja época de abrir as janelas, portas... ou ainda um tímido e pequeno basculante! Já é um começo! Talvez seja tempo de sorrir... mas só TALVEZ...



De janeiro a janeiro

Não consigo olhar no fundo dos seus olhos
E enxergar as coisas que me deixam no ar, me deixam no ar
As várias fases, estações que me levam com o vento
e o pensamento bem devagar

Outra vez, eu tive que fugir
Eu tive que correr, pra não me entregar
As loucuras que me levam até você
Me fazem esquecer, que eu não posso chorar

Olhe bem no fundo dos meus olhos
e sinta a emoção que nascerá quando você me olhar
O universo conspira a nosso favor
A consequência do destino é o amor
Pra sempre vou te amar

Mas talvez você não entenda
Essa coisa de fazer o mundo acreditar
Que meu amor não será passageiro 
Te amarei de janeiro a janeiro
Até o mundo acabar...

(Roberta Campos e Nando Reis)

domingo, 12 de maio de 2013

Mais um dia NOSSO!


Não serei hipócrita dizendo aos quatro ventos que a minha mãe é a melhor do mundo, muito menos que ela é perfeita, pois muitas e muitas vezes entramos em conflito, brigamos, nos magoamos, nos ferimos, aliás, para ser sincera, são raros os nossos dias de paz, e talvez por isso eles sejam tão valiosos, para ambas. Somos muito diferentes em muitas coisas e, ao mesmo tempo, parecidíssimas em algumas e, por incrível que pareça, o parecido é que nos repele. As diferenças são até, quase todas, contornáveis!

Gostaria de poder conversar com ela me sentindo em território amigo, desarmado, sem que no primeiro atrito ela usasse tudo contra mim, impiedosamente. É isso o que mais me incomoda nela, assim como sei que  meu jeito cada dia mais sem paciência para tolices a irrita. Apesar disso tudo, não posso negar que não sei viver sem ela, tanto que acabo voltando atrás todas as vezes em que me decido ir embora (e não foram poucas!). Não gosto da sua falsa independência, que termina quando precisa me pedir para abrir uma simples garrafa de refrigerante, ou fechar os trincos dos basculantes por ela não alcançar, ou fazer o curativo no seu pé, ou acompanhá-la a uma consulta médica... 

Detesto quando ela refaz tudo o que eu faço, ignorando o simples fato de haver várias maneiras de se fazer algo, ou quando coloca defeito em algo, ou quando diz que é para deixar para ela fazer e, em seguida, joga isso na minha cara. Porém, toda a minha raiva velozmente se dissipa quando eu a ouço tossir, espirrar, sinalizar qualquer interferência em sua saúde, ou quando se permite desmanchar falando com o neto com tanto carinho que eu até a desconheço! 

Sinto falta (muita) de uma mãe que erra e não só assume isso, como também a palavra desculpa faz parte do seu dicionário! Às vezes sinto necessidade de ouvir isso em vez de ver feita a minha comida preferida após uma discussão, apesar de saber que é a sua forma de pedir desculpas... sem pedir. Sinto falta de ouvir "eu te amo" e outras demonstrações de afeto em vez de vê-la chorar quando sente que algo ou alguém me ofende ou me magoa. Enfim, a maior prova de amor que eu poderia lhe dar, especialmente hoje, é dizer que, apesar de todos esses incômodos e discordâncias, diários e tão rotineiros, eu não sei se saberia ficar longe dela. Nem meu filho. Somos um time, um trio inseparável, portanto, o dia hoje não é das mães, mas da mãe, da mãe da mãe, e do filho, como tão bem me disse hoje meu sábio Miguel! Viva nós então! 

Essa pessoa sou eu!?!



Às vezes fico me perguntando como meu filho me vê, em meio a tantos erros até mesmo quando tento acertar, ou principalmente nessas horas, e hoje achei engraçado ao vê-lo preparar mais um cartão de dia das mães para mim! Ganhamos dois no Supermercado Extra e ele veio para casa todo empolgado, compenetrado, dedicando-se ao cartão que preparou para mim e para a "mãe da mãe". Sim, porque hoje ele curiosamente não usou a palavra "vó", como se isso tirasse a sua propriedade de homenageá-la também! (risos)

Perguntei o que estava escrito no meu cartão, ao que prontamente ele respondeu: "Mamãe, eu te amo muito, muito, muito! Feliz dia das mães!" Perguntei-lhe do desenho, pensando se tratar de um animal, mas fui logo surpreendida com um, todo animado, "é você, mamãe!!!" Juro que não sabia se ria ou se chorava. Na dúvida, claro, fiz os dois, assim, de uma forma ou de outra, eu acertaria! Agradeci e o enchi de beijos! 

Mais tarde, fiquei fitando o cartão, o "meu" desenho, e ele me flagrou, vindo logo, todo solidário, me ajudar a decifrar o indecifrável! Disse-me que as minhas mãos estavam para trás, o que automaticamente me esclareceu que ele não as havia posto no lugar errado e aquilo grandão era, na verdade, as minhas... Orelhas?!? Putz!!! Senti-me o próprio Toppo Giggio, ou, mais moderninho, o Dumbo!!! Tive vontade de rir,  e de chorar, novamente!!! (risos)

Notei minha forma redonda, que destoava das minhas perninhas de graveto, finíssimas... e que gozado ele ter posto o adesivo de flor justamente no lugar do meu nariz. O que será que isso representaria??? Será que ele quis dizer, inconscientemente, que meu nariz era estranho e que ele não conseguiria desenhá-lo?!? 

Bom, pelo menos ele colaborou passando um batonzinho...!!! (risos)

E nunca ri tanto em minha vida... assim como também nunca parei tanto para refletir... e, pela primeira vez, tive medo de saber como ele me vê, e mais ainda de me ver assim. Desisti de saber! Há certas coisas que não são tãããão importantes assim... ou de repente precisarei de muuuuuuuito mais tempo de terapia para suportar! Vai saber! kkkkkkkkkkk

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Tentando explicar o inexplicável...


Pensando em como dar a notícia a Miguel, quando ele chegasse da escola, de que a bisa dele morreu... Coração angustiado, perdida em meu silêncio e em minhas lágrimas...  e eis que elezinho chega, sorridente, todo animado com a festinha (antecipada) de dia das mães amanhã, na escola... Gesticula e vem me contar "o segredo que não pode ser revelado porque é surpresa", mas aí olha para mim e entende tudo, até aquilo que nem mesmo eu entendo. Com tamanha rapidez e sabedoria esquadrinha a minha alma e lê meu coração. 

Silêncio por alguns segundos. Quebra de silêncio provocada pelo olhar questionador dele, ao qual respondo, sem qualquer tato, que "Papai do céu precisou levar a bisa para o céu..." Novo silêncio. Choro.    Ele me abraça e pede apenas que eu não chore se não ele também vai chorar. Prometo parar de chorar, mas não cumpro, claro. Quem me consola é ele, que abraça a minha dor, a minha saudade antecipada e a  minha frustrada tentativa de querer explicar o que é inexplicável, hoje e sempre, pelos mais variados motivos. 

Vou dormir com esta indagação: "Por que será que nada é da maneira que a gente espera e às vezes até ensaia, né?!?" Ainda bem, ainda bem... Deus sabe mesmo tuuuuuudo o que faz. Meu coração, mesmo sangrando, esboça um sorriso. Adormeço. Quase. E congelo a dor para amanhã. 

Psiu! Silêncio! A guerreira descansa...


Notícia triste... Coração apertadinho... Lágrimas... Certas pessoas são tão especiais que às vezes não precisamos conviver diariamente com elas para nutrirmos um amor sem tamanho! Era exatamente assim como "vovó Dalva", a bisa do meu filho e minha avó emprestada. Sim, meu coração a tomou como vó desde o primeiro instante em que a vi. Impossível não se apaixonar por seu jeitinho manso de falar, por aquele olhar que abraça, por aqueles cabelos tão branquinhos, por aquele cheirinho de talco, e sempre tããão carinhosa! 

Apesar de não termos tido muito contato, sempre fui recebida por ela com muito carinho, alegria, atenção, beijos e abraços! Parecia estar sempre sentadinha em sua cadeira, à nossa espera, ora na cadeira da varanda, ora na cadeira da copa, ora no sofá da sala... só desta última vez que nos recebeu deitadinha em sua cama... mas sempre sorrindo, feliz, em paz... Desta vez nos recebeu com mais emoção do que de costume, e deixou escapar algumas lágrimas, discretas. Talvez ela, com toda a sua sensibilidade e sabedoria, desconfiasse de que já ensaiava uma espécie de despedida! 

Beijou-me como a quem beija uma neta de verdade, e assim me considero, e beijou meu filho, seu bisnetinho, pela última vez. Saí de lá com o coração angustiado, confuso, tal como foi com Juninho... Mas torcia para que eu estivesse enganada e que pudesse, ainda, levar Miguel para vê-la muitas e muitas vezes. Não levarei. Quis Deus assim. Mas sempre o farei se lembrar com carinho da bisa mais linda do mundo e sei que, apesar da tristeza, vou sorrir quando ele falar, como sempre, que "a bisa é tão fofinha, com aqueles cabelinhos brancos!"

Não sei como contar para ele que ela se foi... que ele não encontrará mais a bisa quando for caminhar por aquele corredor de pedras até chegar à casa dela... e que ele não poderá mais vê-la... Estranho explicar certas coisas a quem ainda não tem noção alguma do que a morte nos rouba, e ainda bem que não tem! Sofro por mim, sofro por ele, sofro pela saudade que fica. Foram 98 anos de uma existência linda, regada à saúde e uma lucidez bem maior do que a minha! Difícil acreditar que um fêmur fraturado e uma leve pneumonia tenham vendido essa guerreira. Aliás, não venceram. Prefiro acreditar no olhar dela e nas lágrimas do nosso último encontro, registrado pela foto, que ela já se despedia demonstrando que o coração da guerreira finalmente precisava de um descanso.

Sim, vovó Dalva, que a senhora tenha o descanso mais do que merecido e saiba que jamais vou me esquecer dos poucos, mas intensos contatos que tivemos, como quando o dia em que nos conhecemos, quando passou a mão no meu barrigão quase no final da minha gravidez, quando levei Miguel (com poucos dias de vida) para a senhora conhecer, e quando nos recebeu tão carinhosamente a cada visita, sempre. Obrigada, por tudo, principalmente pela lição de vida, sem nunca a ouvir se lamentar de nada. Que falemos baixo agora, que sussurremos... pensando bem, psiu, silêncio! A guerreira descansa!

Com amor,

Sua "neta" Andreia e seu bisneto Miguel